Um diário não é apenas
uma anotação dos nossos eventos quotidianos. Se assim fosse, não
passaria de uma agenda, com a única diferença significativa na
utilização de tempos e modos verbais distintos. Um diário é muito mais
que isso. É um autêntico texto autobiográfico que reflecte as nossas
emoções e experiências diárias, é um espelho do nosso estado de alma.
Para muitos, é também um amigo, um confidente que escuta todos os nossos
segredos e guarda-os religiosamente. Imagina O Meu Diário Secreto, tal
como é dito na contracapa, é “muito mais do que um diário secreto!”.
É também uma agenda, um chat e uma compilação de testes e mini-jogos.
Mas terá a Ubisoft Milão encontrado uma fórmula de sucesso, ou será que
estamos perante uma ideia que devia ter sido mantida num diário?
Em Imagina O Meu Diário
Secreto, o objectivo primário passa pela criação e manutenção de um
diário totalmente personalizável: é possível, para além de relatar o
nosso dia, atribuir um novo fundo às páginas, modificar a cor das
letras, enfeitar a página com desenhos, entre outras opções. No entanto,
se esta fosse a única modalidade de jogo, a fadiga rapidamente se
instalaria. Por isso, a Ubisoft Milão moldou o seu produto em torno
desta temática, mas não se focou exclusivamente nela.
Antes da abertura
oficial do diário, e após a definição de um código pessoal (que
protegerá o jogo de visitantes indesejados), terão de criar um perfil
onde, para além de um avatar personalizável (com dezenas de diferentes
peças de roupa, acessórios e constituintes faciais), terão de definir,
entre outros campos, a vossa data de nascimento, os vossos hobbies e
preferências. E aqui surge uma das primeiras críticas a este Imagina:
com tanta variedade oferecida na criação do nosso representante virtual
(merecedora de elogio), é injustificável a exclusão de avatares
masculinos. O público da DS é vastíssimo não só em número (só no
Ocidente contam-se mais de 60 milhões de utilizadores), como em
diversidade, e se tivermos em conta a hipótese de construirmos avatares
masculinos para os nossos amigos numa fase posterior, esta escolha
torna-se ainda mais estranha.

A partir daí, a
estrutura de Imagina O Meu Diário Secreto é livre. Todos os dias
definimos uma disposição (que apenas serve para caracterizar o nosso dia
e, posteriormente, contabilizar o número de dias em que estivemos, por
exemplo, “apaixonadas”, “felizes”, ou apenas “stressadas”) e ao sermos
reencaminhados para o menu podemos abrir o nosso diário e escrevinhar
algo, marcar uma data importante no calendário, abrir um biscoito da
sorte para receber um conselho, jogar um de três mini-jogos ou responder
a um teste de personalidade (que influenciará directamente a nossa
“estrela da personalidade”, conjunto de características que nos define).
A navegação pelos diversos menus é simples e acessível, se bem que
bastante demorada (os tempos de loading proliferam pelo jogo).

Os modos multiplayer
fazem também parte desta aposta, complementando a experiência
single-player. Nestes modos, podem partilhar a DS com um máximo de 3
amigos, para que estes leiam o vosso diário convosco (havendo a
possibilidade de jogarem um mini-jogo para descobrir uma palavra ou
frase secreta anteriormente definida por nós), façam um teste de grupo,
tentem dar as mesmas respostas que vocês nos testes individuais, ou
joguem um mini-jogo em conjunto. Podem, em alternativa, dar uso às
potencialidades sem-fios da DS para encetarem uma conversação por voz
com amigos ou trocar objectos (roupas, elementos decorativos das
páginas) ou páginas do diário com estes.
Todo este recheio é,
obviamente, extremamente leve e simples, o que afastará de imediato
qualquer comprador acima da faixa etária que constitui o público-alvo de
Imagine sendo, no entanto, suficiente para justificar a compra de um
potencial interessado. O frustrante processo de desbloqueamento
obrigatório de certas opções (como mini-jogos ou testes de
personalidade) que serve para aumentar (artificialmente) a longevidade -
ao obrigar-nos a jogar um pouco todos os dias – é, também, digno de
crítica, pois acaba por contribuir para o muito rápido desgaste da obra
em causa.
Um aspecto a louvar é a
tradução integral do jogo para português. São ainda raros os títulos
traduzidos para o idioma de Camões, por isso é sempre agradável
desfrutar de uma das “excepções” à regra. No entanto, deparei-me com
algumas gralhas na tradução que podiam ter sido perfeitamente evitadas
com uma revisão mais atenta.

O grafismo deste Diário
Secreto é, no mínimo, muito, muito pouco apelativo. Tudo se desenrola a
partir dos diversas vezes mencionados menus, não havendo qualquer
detalhe que aponte para um aproveitamento mínimo do hardware da
portátil. O uso da cor é chamativo, mas a repetição do mesmo padrão de
cores em quase todos os separadores torna-se facilmente cansativa.
Agradece-se a simplicidade, que é natural num jogo deste género, mas é
difícil desculpar o desleixo a que esta componente foi entregue.
Igualmente deixado a um aparente acaso é o som. As músicas de fundo
tornam-se cansativas ao fim de alguns segundos, não sendo adequadas a
este tipo de jogo. Os restantes efeitos sonoros são banais, não se
destacando dos demais jogos para DS.
Imagina O Meu Diário
Secreto é uma aposta intrigante. Podia ter sido um título muito
abrangente e cativar uma grande fatia do mercado, mas em vez disso vira
as suas atenções exclusivamente para o público feminino muito novo.
Tinha o potencial para agradar muitos, mas decidiu agradar apenas
alguns. De conceito facilmente compreensível, mas com uma execução
desleixada, Imagina O Meu Diário Secreto irá divertir somente o
público-alvo, o que é uma pena.