Como introduzir uma análise a um jogo do Sonic? Podia
chegar aqui e despejar a lenga-lenga do costume “Sonic está em decadência, a
série está arruinada e a SEGA só faz porcaria”. Mas será que é sempre assim?
E nas portáteis? Quantos jogos de plataformas maus temos visto nas
portáteis? Talvez Sonic Rivals seja menos bom, mas do “menos bom” ao “mau”
ainda vai alguma distância. E isto porque Sonic portátil continua
bidimensional com fantásticos jogos lançados durante estes últimos anos a
contrastar com os desastres tridimencionais para as consolas caseiras. De
Sonic Advance a Sonic Rush, passando por sequelas, um port do original da
Mega Drive e por um jogo de luta, chega-nos Sonic Chronicles: The Dark
Brotherhood. Será que Sonic volta a ter sucesso nos bolsos dos jogadores? Ou
será crónico o problema que tem em explorar diferentes géneros que não
plataformas em duas dimensões?
Desta vez, surpreendendo tudo e todos, a Sega
presenteia os jogadores com Sonic em forma de RPG. Estes rapidamente se
lembraram do clássico da Square Enix, Super Mario RPG para a Snes e
colocaram a fasquia bem alta. No entanto, foi quando se soube que o jogo
estava a ser produzido pela famosa Bioware, que a fasquia subiu em grande. A
expectativa era mais que muita. Vamos então saber se o salto foi válido.

O enredo começa quando Tails encontra Sonic na eterna
Green Hill Zone e o avisa que Knuckes e as Chaos Emeralds tinham
desaparecido. A partir daí começa uma jornada ao salvamento do equidna, que,
provavelmente, é a parte mais aborrecida e monótona de todo o jogo, devido
ao ainda reduzido número de personagens disponíveis e à repetição dos
cenários. A história está dividida oficialmente em 10 capítulos, mas pode
ser repartida em duas partes. É nessa segunda parte que tudo se complica. A
Master Emerald é roubada, Sonic, Knuckles e os amigos vão à sua procura e
mais não conto para não estragar a experiencia de jogo. Por falar em amigos,
muitos são os jogadores que se queixam do exagerado número de amizades que
Sonic tem feito nos últimos jogos. Este não é excepção e conta com onze
personagens jogáveis, incluindo uma totalmente nova. A equipa Chaotix também
é referida no início do jogo, estando a trabalhar em cooperação com a GUN
(Guardian Units of Nations). A partir daí tudo se desenrola à volta dos
equidnas e das esmeraldas. As referências a Sonic Adventure são muitas e a
ligação das histórias é constante. É também explicada a origem dos Gizoids
(Emerl de Sonic Battle).
Passando para o jogo em si, o jogador controla Sonic
nos momentos de exploração e nos diálogos, e uma equipa de 4 personagens nas
batalhas. A selecção de estas influencia um pouco os diálogos, mas há sempre
uma ou outra crucial que aparece lá como por magia. Os textos estão muito
bem conseguidos e originais. Cada personagem tem o seu estilo e a sua
personalidade bem marcada, sendo que os mais interessantes são Rouge, sempre
com o seu discurso sarcástico e venenoso, e Big que, mesmo só tendo à volta
de uma dezena de intervenções ao longo do jogo, consegue sempre surpreender
com algo que não tenha nada a ver com o que está a decorrer. Pode estar o
mundo para acabar que Big solta sempre uma linha de texto sem sentido que
origina uma intervenção de “…” proveniente de todo o colectivo de
personagens. Outro ponto interessante dos diálogos é as várias opções que o
jogador tem para dar como resposta de Sonic numa conversa. Há opções que
fazem com que o diálogo seja mais rápido, outras para responder amavelmente
e outras com agressividade, mas tudo sem alterar minimamente o decurso do
jogo.

O jogo tem à volta de 10 cenários diferentes que,
divididos por 10 capítulos, dão um resultado de um cenário novo por capítulo
(a sério?). O ecrã de cima da DS mostra o mapa em tamanho pequeno e os
objectivos lá marcados com estrelas; o de baixo mostra a acção em si que é
controlada com a stylus exclusivamente. O controlo é bom, mas requer hábito.
Quanto aos itens, há os habituais para recuperar as personagens, os para as
equipar e tornar mais fortes e os chaos, cujos ovos vão sendo encontrados ao
longo do jogo e transmitem ao personagem a que são ligados características
especiais. Para os comprar recorremos aos tradicionais anéis que se apanham
pelo mapa, que funcionam como moeda de câmbio. As batalhas não são
aleatórias, de maneira que os inimigos são visíveis ao jogador. Estas muitas
vezes são de dificuldade e duração muito idênticas às dos chefes, ou seja,
normais, demasiado longas e um pouco difíceis (no início é rara a batalha em
que não se perca vida) e chefes demasiado fáceis e rápidos. Cada personagem
tem o seu movimento especial para progredir no cenário. Por exemplo: Tails
voa, Amy parte caixas, Knuckles escala paredes, etc… Para o jogador ficar a
conhecer melhor o universo de Sonic, vem incluída uma autêntica enciclopédia
que explica a origem das personagens que têm vindo a aparecer ao longo da
série. O jogo cumpre nas 20 horas prometidas e tem bastantes sidequests,
como já é hábito num jogo da BioWare.
Passando ao sistema de batalhas, é por turnos, está bom
e bem fluido, se bem que tanta fluidez pode não agradar aos mais
conservadores. Quem gosta daqueles RPGs calmos em que se pode coçar a nuca
enquanto as personagens executam os movimentos pode não achar muita graça a
este. A qualquer momento podemos levar com um POW move do qual nos temos de
proteger para evitar perder muita vida. E o que são POW moves? Como
funcionam? POW moves, basicamente, são ataques especiais que requerem PP
(equivalente à “mana” ou “MP” em outros RPG’s). Para os executar temos de
realizar movimentos que depressa fazem lembrar Ouendan e Elite Beat Agents,
mas sem música: carregar em pontos do ecrã em momentos específicos. A cada
nível que cada personagem avança, o jogador pode escolher entre adicionar
mais um POW move ou melhorar outro (até dois melhoramentos por POW). Para
além dos POW moves, é possível fazer ataques normais, defender, usar um item
ou fugir. Cada personagem tem as suas características: por exemplo, os mais
rápidos atacam 3 vezes por ronda, os médios atacam duas e os mais lentos e
mais fortes atacam uma. Depois há personagens cujos POW moves são dedicados
ao trabalho de equipa (fortalecer, restabelecer equipa).

Um dos aspectos mais interessantes do jogo é certamente
o seu estilo gráfico. Colocando o 3D, o Pixel Art e qualquer outro estilo
frequentemente usado nos videojogos de lado, Chronicles apresenta cenários
com estilo próprio, bonitos e coloridos que facilmente passariam por
pinturas feitas à mão. As personagens e os inimigos estão representados por
modelos tridimensionas em cell shading , bem ao estilo de Sonic Rush. As
cut-scenes são de deixar água na boca, não só por serem bonitas, mas também
por serem muito poucas. O grafismo é sem dúvida o ponto mais positivo de
Sonic Chronicles.
Em relação ao som é que já não se podem escrever
grandes maravilhas. Músicas muito desinspiradas e repetitivas, efeitos
sonoros de fraca qualidade e, principalmente, com muitos bugs. Quando se
apanha um item de uma caixa, ouve-se um som que, por vezes, dá o efeito de
CD riscado. O problema é que apanhar itens de caixas é algo frequente. O som
que as personagens femininas emitem quando são atingidas por um ataque é no
mínimo ridículo. O uso de head-phones só piora a experiencia sonora.
Sonic Chronicles é uma experiencia interessante, mas
havia espaço para mais, muito mais. É de referir que os créditos finais
estão muito originais e são em forma de um diálogo entre Sonic e Tails.
Sonic vai fazendo perguntas a Tails sobre quem fez o jogo até uma altura em
que Omega entra na conversa e introduz todo o staff interno da Sega. A
Bioware deixou o fim em total cliffhanger, preparando-se para uma sequela.
Espera-se que as muitas lacunas de este sejam resolvidas.
António Vieira